Documentos Acessíveis: Como funcionam na prática
A leitura não é linear — para ninguém
Antes de falarmos da parte técnica, importa desfazer um mito comum: mesmo pessoas com visão não leem um documento de forma linear, da primeira à última linha. Quando abrimos um PDF ou um documento digital, o nosso olhar salta entre títulos, listas, imagens e palavras-chave. Essa leitura não-linear é facilitada por uma estrutura visual clara.
Agora imaginemos alguém com deficiência visual total ou parcial. A leitura visual não é possível, e o utilizador depende de tecnologias de apoio como leitores de ecrã. O objetivo dos documentos acessíveis é permitir uma navegação tão eficiente e fluída quanto a de qualquer outro utilizador. Para isso, é essencial construir o documento de forma que a sua estrutura faça sentido… mesmo sem ser vista.
O que é um documento acessível?
Um documento acessível é um ficheiro digital (PDF) criado com elementos técnicos e semânticos que permitem que seja compreendido por tecnologias assistivas. Isso é feito através da introdução de tags (etiquetas) no conteúdo — ou seja, metadados invisíveis ao utilizador comum, mas fundamentais para quem utiliza um leitor de ecrã.
Estas tags indicam:
- Onde estão os títulos (e em que nível estão: título principal, subtítulo, secção…)
- Onde há listas, tabelas ou blocos de texto corrido
- Quando existe uma imagem, e qual o seu texto alternativo (descrição)
- Quando existe um gráfico ou ícone e qual a sua função ou mensagem
- A ordem de leitura lógica, que nem sempre corresponde à ordem visual
Estrutura Clara = Acessibilidade Real
Para garantir acessibilidade, a estrutura do documento tem de ser clara, consistente e previsível. Isto implica:
- Utilização correta de títulos hierárquicos (H1, H2, H3…) para permitir navegação por secções
- Agrupamento adequado de elementos como listas e tabelas
- Evitar quebras de layout que confundam a ordem de leitura
- Separação semântica de conteúdo: por exemplo, títulos não devem ser apenas texto em negrito, mas sim elementos marcados como tal
Exemplo prático: um leitor de ecrã permite que o utilizador “salte” diretamente para o próximo título H1, tal como uma pessoa com visão faz com o olhar. Se o documento não tiver estas tags, o leitor de ecrã não saberá distinguir um título de uma frase normal.
A informação visual deve ser traduzida em texto
Um erro comum em documentos digitais é confiar exclusivamente em elementos visuais para transmitir informação. Para garantir acessibilidade, todos os elementos visuais devem ser acompanhados de uma descrição textual significativa.
- Imagens ilustrativas devem conter um texto alternativo (alt-text) que descreva o que está a ser mostrado.
- Gráficos ou diagramas exigem uma descrição mais detalhada, que explique os dados e as conclusões.
- Ícones funcionais (por exemplo, um ícone de envelope para indicar “contacto”) devem ter etiquetas textuais claras.
Exemplo: se um gráfico mostra a evolução das vendas num trimestre, o texto alternativo deve indicar essa evolução (“O gráfico mostra um aumento gradual das vendas de Janeiro a Março”).
Sem estas descrições, o utilizador com deficiência visual não tem acesso à mesma informação — e isso compromete a inclusão e a equidade no acesso ao conteúdo.
Relatórios de acessibilidade
A validação de que um documento está efetivamente acessível faz-se através de relatórios de acessibilidade, muitos deles disponíveis através de ferramentas gratuitas. Estes relatórios avaliam a conformidade com as normas WCAG (Web Content Accessibility Guidelines), que se aplicam tanto a páginas web como a documentos digitais, como os PDFs e analisam, por exemplo:
- A presença e estrutura dos títulos
- A ordem de leitura lógica
- A existência (ou ausência) de descrições alternativas em imagens e gráficos
- A consistência das etiquetas semânticas e metadados
- O contraste e a linguagem do conteúdo, quando aplicável
Ao garantir que qualquer pessoa, independentemente da sua capacidade visual, consegue navegar, compreender e interagir com um documento, estamos a tornar o conteúdo verdadeiramente universal. Na prática, isto faz-se com atenção à estrutura, rigor na marcação semântica e respeito pelo utilizador.
Com a experiência que temos vindo a desenvolver nesta matéria, os nossos clientes têm a garantia de que os seus documentos são preparados de forma profissional, acessível e validada tecnicamente — cumprindo não só a lei, mas também a ética digital.
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